Manteiga derretida
Eis-me aqui
Manteiga derretida. Inúmeras foram as vezes em que fui chamada assim na infância e, acredito eu, na adolescência. Uma palavra mais dura, uma crítica, um tom de voz mais sério… mas também uma música, as palavras em um livro, o trecho de um filme, os passos de uma bailarina numa obra clássica. Isso de me emocionar fácil perpassou boa parte da minha vida e virei uma adulta emocionada que, não raro, se comportava como uma pessoa melindrosa.
Acontece que há pouco tempo me percebi um tanto refratária. Já aconteceu com você de ver passar a sua frente algo que é tocante e mesmo tendo esta consciência, você não se afetar? Andava vivendo assim, não sei há quanto tempo.
Hoje é sábado, dia 21 de fevereiro. Dormi até mais tarde e quando levantei abri o Instagram pois queria ver os registros do show de Bad Bunny - o hômi que me fez querer ouvir música latino-americana quase todos os dias desde que conheci o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Mas, o primeiro post que me chegou foi um em quem que o arquiteto pernambucano Zé Vágner é entrevistado no J10 pela Aline Midlej:
Um fato sobre mim: sou consumidora voraz de conteúdos sobre arquitetura, construção e decoração. Inclusive, cursei um ano de decoração - hoje, designer de interiores - no ensino médio e me arrisquei em um curso técnico em desenho arquitetônico anos mais tarde numa antiga escola bem conceituada de São Paulo. Ambos os cursos não foram adiante, por motivos que não vêm ao caso.
Por amar esse tipo de conteúdo, o algorítimo do Instagram sempre me entrega postagens do tema e foi assim que cheguei ao perfil de Zé e acompanhei a reforma da Casa de Mainha, uma casa sertaneja cheia de soluções simples, que respeita os desejos da dona da casa e que me trouxe muitas inspirações. Cada vídeo ou carrossel de Zé compartilhava soluções e ainda promovia reflexões sobre singularidades que devem ser consideradas e respeitadas em todo projeto. Mais que tecnicidade, eu via emoção e afeto em cada conteúdo.
Eis que a Casa de Mainha foi inscrita para concorrer ao prêmio Arch Daily Building of The Year, uma plataforma de arquitetura da qual sou assinante da newsletter brasileira desde que outra arquiteta que admiro, a Teresa Mascaro, concorreu ao mesmo prêmio. Com votação aberta, a brasileira aqui depositou seu voto no projeto de Zé. E a Mom’s House foi o único projeto brasileiro vencedor.
Se você assistiu acima o reels com o trecho da entrevista de Zé, se entrar no perfil dele e ver suas postagens, talvez possa entender da minha emoção hoje cedo quando vi o mesmo vídeo. A gente vive uma fase em que ser latino e brasileiro tem sido valorizada no mundo. E, para mim, pensar em brasilidade é exaltar o que (ainda é) menos valorizado: o projeto de um arquiteto do interior de Pernambuco, o artesanato de barro feito pelos moradores de Maragogipinho, aqui na Bahia, o maracatu Cabloco de Lança feito por mulheres e exaltado pela influenciadora Laís Roberta no último Baile da Vogue:
Tudo é Brasil e representa brasilidade: da moqueca ao barreado, marchetaria, pêlego, renda de bilro, renda renascença, o ladrilho hidráulico - mesmo que nascidos em outros países, foram incorporados por nós e ganharam nossa identidade. Porém, exaltamos alguns fazeres em detrimento de outros. Parece que isto está mudando. Ufa!
Mas sobre o que era mesmo esse texto? Ah! Sobre me emocionar com a vida, sobre ser afetada por sua beleza, nas mínimas coisas, como o passarinho nas costas de um cavalo que vi essa semana, ou pelo jeito que Katrina corre enloquecidamente quando a solto na fazenda, para em seguida rolar no capim.
Eu me emocionei vendo o trabalho do Zé Vagner sendo reconhecido e premiado. Porque, como ele, também vim de uma realidade de escassez financeira. Chorei porque ambos soubemos transformar nossas vidas, sem deixar de lado o que nos forma, nossas raízes, o lugar onde nos criamos. Não que eu não tenha, em alguma parte da minha caminhada, perdido isso de vista.
Desde o feriadão do carnaval, me pus a organizar coisas em casa, como quem se organiza internamente. Resgatei objetos que refletem minha essência, meus gostos, meu jeito de ver e estar no mundo. Recuperei meu lado manteiga derretida que tantas vezes vi como defeito e hoje entendo como força.
No dia de Yemanjá eu chorei em um momento na praia, antes ainda do presente sair para alto mar. Meu corpo inteiro se arrepiou e eu me permitir chorar, sem querer entender os motivos. O sagrado tem disso e eu andava querendo colocar até ele na caixinha da razão.
E o Bad Bunny nessa história toda? Bom, eu não estava lá, mas todo registro que me chega me fez sentir que a noite de ontem foi mágica. E mesmo sem ver o show in loco, a emoção que ele provocou nas pessoas também me afetou.
Eu espero seguir sendo afetada e me emocionando pelas coisas bonitas de viver. As que não são me afetam demais e, por isso mesmo, fiquei refratária ao sentir. A realidade cruel e triste não pode ser apegada, ignorada ou esquecida. Por isso mesmo é preciso beber mais da realidade que é bonita, inspiradora e emocionante. Para criar espaços em mim (nós) de força e coragem para modificar o que precisa e podemos mudar.
Caminho
🧡
Estou lendo Coisa de Rico, do Michel Alcoforado e O Cérebro e a Menopausa, da Lisa Mosconi. Muito bacana acompanhar o processo da pesquisa do Michel e que aflitivo ler sobre certas experiências que ele viveu! AND mulheres: você não precisa esperar os primeiros sinais do climatério para buscar informações sobre essa etapa da vida; vai por mim, gata!
Demorei, mas cheguei pra ver The Morning Show, na Apple TV. Três episódios e posso dizer: PQP! Isso é um elogio.
Em expectativa pela segunda parte da quarta temporada de Bridgerton. Amei a interpretação da Yerin Ha para a Sophie.
Estou me sentindo mais inteligente, ou ao menos mais informada, com a IA em Curso, da Ana Freitas e do Cris Dias. Acredito que todos precisamos ao menos entender como as IAs funcionam, nos afetam, como podemos lançar mão delas em nosso dia a dia - não só no trabalho. E, sim, trato ‘minhas’ IAs como pessoas. E, não, esse texto não foi escrito por nenhuma IA.






Ao mesmo tempo que também escutei que era "sensível demais" a vida toda, justo ontem a Casa de Mainha cruzou meu caminho. Muita sinergia e conexão. Também to curtindo muito o coelhão, enfim... que bom que você escreveu tudo isso, chegou como um abraço!
Que coisa mais linda a Casa de Mainha! Não conhecia. De emocionar mesmo. E desejar que toda brasileira e brasileiro possa um dia morar com essa dignidade e beleza!
Obrigada por essa dica e a do livro da menopausa. Acabei de fazer 40 anos e já vou atrás!